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confissões

Reflexões num avião parado no sinal vermelho

Revolução desarmada

Fico me perguntando às vezes o que acontece quando me vejo ser uma pessoa diferente com cada pessoa, a depender da figura que esta representa em meu imaginário — a figura de amigo, parente, mestre, pais, namorado, desconhecido. Parece que esta disparidade de eus está de alguma forma equivocada; porém, considerando o desnivelamento espiritual do qual padeço hoje, não há equívoco algum. Cada figura representativa é uma soma de projeções, o que confere realidades — provindas de delírios — completamente diferentes entre si, implicando, obviamente, comportamentos diferentes. Do mesmo modo que a imagem vista por um olho humano é formada na retina, a imagem de uma pessoa também é formada na consciência — ou inconsciência — de modo que eu não a vejo como ela é, mas sim como eu quero — ou, o que quer em mim — ver. Então, todas as pessoas com quem ajo de forma diferente parecem ser alvos de um exército de soldados loucos — dependendo da projeção, alguns dormem enquanto outros ficam em estado de vigília, à espreita com suas armas. E assim, num esforço contínuo de soldados numa batalha, ajo contra as próprias projeções que crio.

Deste modo, o mais consequente de tudo parece querer uma reconciliação com esses diferentes soldados que surgem de mim, modificando a impressão da realidade ao meu entorno. Esta consequência ainda é superficial, ao avançarmos um pouco mais, chegamos no fato de que, também comigo mesma, em diferentes situações, o que entendo por eu também acaba sendo modificado pela minha própria percepção; talvez não exista um “eu” essencial no fundo de todo esse caos que seja possível alcançar quando estou sem as devidas projeções fantasmagóricas — pois, mais ou menos lúcidas, acredito que elas não me abandonarão.

Estou vislumbrando que, na verdade, a querida ideia de reconciliação aqui não seja com os meus mais variados soldados, mas sim com o mundo que me cerca: meus soldados não precisam estar contra o mundo, ou melhor, eu não preciso de um exército de soldados que me fazem afastar-me deste mundo. Mas talvez precisaria ter um contra aquilo que os une — talvez isso seja eu. Eu falo disso não porque eu saiba desarmar-me — mas porque vejo uma necessidade disto e agonizo por não conseguir.

Apesar do mundo também ser parte da minha impressão sobre ele, é nele em que vivo — e sei que seria muito melhor viver num ambiente contra o qual não se luta. Desta forma, devo tentar aniquilar meu próprio exército antes de ver no outro uma guerra em potencial. Acho que é neste sentido que Camus usa a palavra revolta como uma característica essencial do mundo absurdo. A revolta é, para Camus, o confronto perpétuo do homem com sua própria escuridão [1]. A palavra revolta tem relação com revolução no sentido radical da palavra, e não como se conhece vulgarmente. Na matemática, a palavra revolução descreve um objeto que gira em seu próprio eixo, por exemplo, um cilindro de base circular: ele é um retângulo que faz uma revolução — um retângulo revolucionado — um retângulo revoltado.

A alegria de uma sauna

melancólica,

ou,

A umidade e o engodo da unidade

 

Assim como os diferentes soldados do exército que questionei inicialmente, questionei também os diferentes estados de espírito que rondam um breve período de tempo e como alguns deles permanecem, como a melancolia ‑ ou até mesmo uma jovem felicidade. Às vezes fico numa ânsia querendo que um deles suma e o outro permaneça sem cessar — como se pudesse sumir com os pontos obscuros que mesmo uma jovem felicidade traz consigo. Mas esqueço de ver que eles existem num ambiente cujo princípio básico é o de uma sauna úmida: como seu próprio nome diz, ela, mesmo ligada por muito tempo, nunca está totalmente molhada nem totalmente seca — mas sua umidade, seu estado permanente de transitar de um estado para o outro é um ciclo eterno. Lembro-me da questão colocada pelos pré-socráticos, por Heráclito talvez, a multiplicidade do Uno — nunca havia conseguido ver uma situação que isto se encaixasse — não que seja isso o que ele quis dizer, mas pegando isso emprestado para o que eu preciso dizer — o sonho de alcançar uma unidade de mim é subterfúgio para desviar a atenção de certificar-me de meu permanente divórcio — o mundo inédito de mim.

As gotas de água que pingam a todo momento evaporam, precipitando-se e caindo a fim de continuar umedecendo áreas recém secas — e assim como a melancolia — ou a alegria — evapora para, no dia seguinte, molhar novamente meu chão — e permitir que os dias continuem em sua vivacidade — e, se conseguirem suportar alguma contradição, ver que não são tão diferentes assim — que alegria é tomar um banho quente e perceber-se ajustado numa silhueta monótona — ou, como muitos preferem, melancólica — e, mesmo úmido, estar confundido pelo seu aspecto, sobretudo, árido: sem móveis que possam criar a ilusão de me apoiarem neste chão sempre seco e sempre molhado ao mesmo tempo: sempre escorregadio.

[1] Camus, O mito de sísifo, pág. 60. 

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