O que é escrever um poema?

Qual é a necessidade de escrever um poema se a impossibilidade de se comunicar está sempre dada de antemão – e o poema não seria – de modo algum – alguma facilitação? Seria o poema então o testemunho dessa incapacidade? Seria ele a máxima tentativa de fazer com que ela se realizasse? Seria uma extensão do corpo, para se fazer existir como que numa beirada a mais, numa beirada maior, numa beirada em que coubesse o corpo todo e não só ele encolhido como normalmente cabe? Como, então, três linhas dariam conta de fazer o corpo ser maior? Como repetidas três ínfimas linhas dariam conta de carregar a violência que retêm? 

Essas perguntas estão indo na direção errada – e faço questão de não apagar esse erro. 

Parece que o poema existe para fazer a si próprio maior – ou para se criar – ou melhor, para se fazer menor, para poder caber numa folha de papel, já que ele é tão grande e não caberia em lugar nenhum – não daria para carregá-lo embaixo do braço como um embrulho – ele te carrega antes que te apercebas – ele veio para dizer não o que ele quer dizer – isto é, nada – para ser um espaço a mais dele mesmo – para viajar para a praia – e ela aparece como a brancura de um papel – para deslocar sua substância lúdica para uma outra peça do quebra cabeça, deixando-o ainda insolúvel, pois não achou as peças que faltam – essa não é sua missão – ele só denuncia que cada vez mais peças faltam.

Parece que há de se procurar os restos das roupas de alguém que deu um grito e saiu correndo – esse alguém era um poema – o poema não era seu grito, mas ele próprio era – não dá pra pegar o resto do seu grito – ou de seu corpo – ninguém conseguiu vê-lo ou ouvi-lo – só se pode pegar o que sobrou de sua roupa rasgada e jogada – e elas se disfarçam de palavras, complicadas paranomásias que querem antes de mais nada estarem cifradas – são roupas que vestem coisas – outras coisas – e por isso estão mais cifradas do que nossos olhos costumeiramente enxergariam – e às vezes por serem tão claras, cegam-nos com sua ofuscante luz. 

Parece o poema aquele musgo que eu sempre vira crescendo num canto do muro no fundo de minha antiga casa – parece que ele veio existir fora do muro, fora de seu habitual lugar úmido – ele faz dos meus olhos reféns – e dos meus desejos, meras bijouterias – que um musgo não usaria; veio se propor a ser um outro tipo de musgo – veio ser outro – veio – fora – aparecer.

Uma das coisas que eu amo nos poemas do Rubens é – essa é uma coisa, uma única coisinha que posso ver hoje – não consigo nem aguento ver muitas – uma delas é que eles não estão sujos de uma vontade – de uma ânsia em falar – uma ânsia que não deixa o ouvido ouvir – eles são seres animados – o marinheiro, uma evangélica, furgão – vivendo embaixo duma terra fértil – são mais mundo – são arquitetura – e que agonia (que felicidade angustiante descobrir que dá para viver mais, mas não sei como!) que dá em perceber que eles são um espaço para que eu também me sinta podendo existir – e me perder do caminho que já conheço – mais.

Uma das coisas lindas é que Rubens carrega embaixo do braço vários embrulhos todos os dias – e – brilhantemente – nenhum deles é um poema. 

CCS, 6 de julho de 2017