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Marquês

de Sade

Sade é tido como um dos escritores mais aterrorizantes da história devido a histórias que contêm, de forma abusiva estupros, incestos, orgias, violações físicas, sodomia, pederastia entre outras práticas que, na época, eram consideradas criminosas.

 

Libertinagem

Porém, além de todo esse enredo que ronda seu nome, podemos dizer que a voluptuosidade de Sade se dá entre as frases que constituem seus romances — são elas as próprias cenas dos crimes: cada personagem — cada palavra — copula com todos as outras, submetendo-se a inúmeras regras que não mais nos pertencem e que existem justamente para poder excluir as regras do sentido e da linearidade, tornando-se um carrossel discursivo, fazendo a razão cair do cavalo e o texto ser a mola que propulsiona um movimento perpétuo e circular. É por isso que, nos romances de Sade, os mais variados tipos de incestos são feitos: quando o que está em jogo é o discurso, não se tem limites quanto ao gênero.

Libertinos são pessoas que, sobretudo, se desviam de um caminho imposto, faltando ao cumprimento de algum dever. Ou seja, libertino é exatamente o que Sade não é — não da forma que se imagina um libertino –, dado que não falta ao seu compromisso de escrever ininterruptamente seus crimes — e portanto de violar o que sua constituição o pediria para ser.

Interdito

Talvez a vida, a sociedade, as pessoas, a matéria cotidiana nunca aceitaria por completo a fantasia proposta por Sade: não só por qualquer lei moral, mas porque algo iria se esgotar — ao passo que aquilo que Sade quer só aumentaria — não se pode, por exemplo, matar duas vezes a mesma pessoa — ou ainda, não há como transar infinitamente sem atingir o gozo — o corpo não permitiria coisas assim. Ao contrário disso, os libertinos de Sade estão constantemente em atividade — na realidade, não daria para ir mais, não poderia se avançar no absurdo — iria sempre sobrar muita coisa — a impossibilidade do que achamos ser realidade só confere ao próprio discurso infinitas possibilidades de fala, fazendo com que somente a linguagem permita a construção de Sade — somente ela é infinita na mesma proporção que a constituição que este ser pede para poder se construir.

Repetição

Sade não se encontra preso apenas por uma prisão física — mas está submetido a leis que ele mesmo não conhece — apenas vislumbrando-as quando escreve episódios que, de alguma forma, se repetem, e que gritam para que sua forma exista. Sade se submete, ele mesmo, a uma frequente violação por uma linguagem que é, por excelência, criminosa — ao ser o contrário do gozo: não finge cessar seu desejo — não encontra vacância — mas promete apenas que ele sempre lhe dê mais. Assim, Sade construiu com suas mãos janelas que dão para a realidade, em vez de ter enganado-se com aquilo que achamos ser realidade, quando, na verdade, estamos mergulhados na ilusão — deste modo, Sade conseguiu colocar a cabeça para fora de sua prisão e ter se falado — e talvez seja esse o motivo pelo qual Sade entrou para a história — o que é muito mais excêntrico do que qualquer suposta excentricidade do conteúdo de suas histórias libertinas — pois criar um alimento feito de uma língua que, inicialmente, ninguém vai ouvir e que se baseia numa repetição infernal é, sem dúvida, subversivo, pois vai contra a natureza do corpo de qualquer um — o de gozar e dormir.

Loucura

Os romances de Sade não são feitos de histórias mas do próprio tecido da linguagem que o alimenta deixando-o, ao mesmo tempo, sempre com fome — são aquilo que o fazem permanecer vivo — são aquilo que o salva de sua própria vida — Sade é um sobrevivente de sua própria vida — tendo todas as condições necessárias para fazer seu desejo morrer, Sade conseguiu não só estar perto do seu alimento mas criá-lo, afastando-se de um estado mórbido — estade esse que, inclusive estaria mais próximo do gozo literal, enquanto que o gozo que Sade tem ao escrever seus crimes está sempre começando e não vê fim — ele comete crimes maiores do que os que cometeu fora do papel — ele criminaliza sua própria ação ao não matá-la (e ainda assim, continua vivo) — ele faz com que seu pesadelo permaneça vivo. Assim, enquanto achamos Sade um louco, ele está muito mais próximo de seu alimento do que nós, que, batendo punheta para milhares de impedimentos e negações, pensamos ser: a loucura de Sade é a própria sanidade da qual tanto fugimos.

Conversão

Talvez a fome em estar vivo de Sade era tamanha que ele não precisava se esforçar para converter uma energia mórbida de matar e fazer crueldade em energia criativa — mas não seria esta energia, talvez, algo tão violento que logo ao nascer já converte-se em outra coisa que não o matar? Ou ela é tão violenta que não vê diferença entre matar e não matar? Sem distinguir gêneros — pertencendo assim absolutamente ao mundo do discurso, não seria ela o próprio desejo de sobreviver, de quem está realmente à beira do abismo e não hesitaria em agarrar qualquer minúscula pedra que promete lhe salvar — independente de que pedra seja essa? Sade é um artista não por ter escrito, mas por ter feito da escrita algo que salvou sua vida do que ela poderia ter sido — assim, Sade era livre mesmo sendo prisioneiro.

 

John Milton e

a cegueira

 

O paraíso perdido é uma obra da

Filosofia do Aleijado

O Paraíso perdido escrito por John Milton é um poema épico dividido em 12 cantos. No início do poema, como em todo poema épico, há um exórdio, onde o poeta pede ajuda às divindades para que ele possa escrever o poema. Porém, quero neste texto falar particularmente do início do Canto III, onde há uma nova invocação, onde o poeta pede ajuda não das Musas mas da luz divina para que iluminem o herói do poema, Satã, a seguir sua trajetória — ou, podemos bem dizer, para iluminarem o próprio poeta a escrever o poema, dado que praticamente não encontramos, neste momento do poema, distinção entre a figura de Satã e o próprio Milton — Satã, figura deslocada da do poeta, passa a ser um dispositivo para que ele adentre a luz — ou ele mesmo. Digo isto porque Milton, aos 46 anos de idade, foi levado à completa cegueira, em 1654. Quatro anos após esta queda, escreve — ou melhor, dita para que suas filhas escrevam — O paraíso perdido, esgotado em 1 ano e meio após sua primeira publicação em 1667.

O Canto III é sobre o momento em que Satã consegue atravessar os nove portões do inferno para procurar a nova terra criada por Deus, ou seja, quando ele sai das Trevas e avista um pouco de terra iluminada pela luz dos céus:

 

[…] Revisito-te agora co’asa ousada,

P’ra trás o lago estígio, preso embora

Na longa estrada escura, quando em voo

Nado por trevas médias e exteriores [1]

 

Milton fala aqui para a luz divina que ele não mais vai falar sobre o inferno agora que ele deixou suas trevas para trás, mesmo estando ainda preso a elas.

 

A salvo te revejo, e entrevejo

Da vida o teu farol régio: mas tu

Já não revês meus olhos, que em vão rolam

P’ra toparem teu raio, e alva alguma

Topam, tão densa veio ao globo a gota

Serena, ou o véu da sufusão.

 

Ele confessa sua doença e pede que o brilho da luz caia sobre ele, pois ela já não brilha mais em meus olhos desde que a serena, (cegueira) e a sufusão (catarata) lhe atingiram.

 

Mas vou ainda aonde assombra Musas

A primavera chã, o bosque obscuro

Ou vale ao sol, co’amor do canto sacro

Batidos; mas a ti mais Sião e aos veios

Flóreos a teus pés, almos pés que lavam,

 

Mesmo cego, ele irá se aventurar em terras assombradas pelas Musas, como a da poesia hebraica, que ele tanto ama.

 

Em curso chilreador, de noite venho.

Nem esqueço os outros dois iguais em fado,

Fosse eu igual a eles em renome,

O cego Tâmiris, o cego Meônida,

E Tirésias, Fineu, velhos profetas.

 

Nas trevas de sua vida, ele vem dizer este discurso sem se esquecer dos grandes que também passaram pelo que ele passou: Tâmiris, o poeta-xamã que perdeu a visão num combate com as Musas e teve posteriormente sua alma transformada em rouxinol; Homero, que cantou a Ilíada e Odisséia; Tirésias, o profeta tebano e cego e Finei, rei que perdeu a vista como castigo dos deuses.

 

Então em pensamentos mais nutridos

Que espontâneos canoros metros movem;

Canta às cegas assim o vígil pássaro

E em ninho umbroso afina os seus noturnos.

O rouxinol, sem ver, canta lindamente no escuro, movendo versos espontânea e harmoniosamente.

Voltam estações com o ano, não p’ra mim

O dia, ou o adeus cortês da tarde

E o olá da alba, a flor vernal, a rosa

Do verão, bandos, rebanhos, e a divina

Face do homem, só nuvens de vez, trevas

Fechadas sem fim, de usos joviais de homens

Isento, e nas páginas do livro

Da ciência lendo o branco universal

De obras naturais e rasas e delidas

Co’uma porta que fecha o saber fora.

 

As estações se alternam, os dias viram noite, os botões florescem, há animais e pessoas maravilhosas, porém ele não vê nada além de trevas; não pode aprender pelo olhar.

 

Tão mais p’ra dentro tu celeste luz

Brilha, e a mente plena de poderes

Irradia, aí fixa olhos, purga

E daí varre a bruma, que eu fale e olhe

Coisas cegas à vista dos mortais.

 

Assim, ele pede: luz, por favor brilhe em mim e põe olhos em minha mente para que eu possa ver e falar sobre coisas que ninguém mais pode ver — e que por isso me fazem imortal.

________

Essa atitude perante seu impedimento é uma das coisas que faz este livro ser perpétuo, não ser datada ou antiquado, pois a cegueira, seja ela física ou espiritual, é algo existente em todas as épocas e povos; é a nossa queda. Porém os grandes mestres nos mostram que nossa queda é também nossa condição de nos elevar, como propõe a Filosofia do Aleijado de Rubens Espírito Santo, cuja obra nasce de um lugar muito semelhante ao de Milton.

Milton era funcionário público na Inglaterra e preocupado em contribuir à sua comunidade, durante sua vida, escreveu muitos textos críticos sobre as diversas liberdade do homem: jurídica, religiosa, política e civil e até mesmo em relações amorosas (escreveu sobre divórcio e poligamia). Destemido e polêmico, teve muitos de seus escritos queimados e fora preso. Não seria então sua condição aquela que iria prender suas mãos, e assim também sua vida. A necessidade monstruosa de Milton de superar condições impostas a ele o moveu a escrever uma história cuja narrativa inicial é nada menos que a própria Bíblia, e hoje nos impacta mais que ela. Em seu poema, uma fala de Deus sobre sua capacidade de prever o futuro não intervir no livre arbítrio do homem reflete esta posição de Milton: o homem é livre, e será livre até que ele mesmo se prenda. [2]

A permanência deste livro quatrocentos anos após ter sido feito e que, aparentemente, seria alheio a mim, por pertencer a outro contexto e outra época, é o que faz dele ser uma obra — tendo o poder de equivaler um trabalho artificial a um trabalho natural — como disse Hannah Arendt em A condição Humana: Milton produziu O Paraíso perdido pela mesma razão que o bicho-da-seda produz seda. A problemática posta no paraíso perdido — o Mal que provocou a queda de Lúcifer do Paraíso e posteriormente a queda do homem — é respondida com a própria feitura do livro, fazendo com que Milton, mesmo tendo sido atingido pela cegueira, não fosse dela uma vítima — mas fizesse dela uma desculpa para atravessar seu inferno e ver coisas que, até hoje, nós, mortais que precisamos de mestres cegos e aleijados, não sabemos ver sem que eles nos mostrem.

[1] O paraíso perdido, tradução de Daniel Jonas, Companhia das Letras

[2] Formei-os livres, livres ficarão / Até serem de si reféns. O Paraíso perdido, Companhia das letras, pág. 199

 
 

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