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Um trabalho

de arte

 

 

A urgência que te move, que te propulsiona para ir até o atelier todo dia, deve ser o desejo de ver figuras que ainda não foram realizadas. Se é aí que seu coração está, integridade não será uma questão.

 

Kerry James Marshall,

Carta para um jovem artista,

2006, tradução de Anna Israel

Kerry James Marshall, A Portrait of the Artist As a Shadow of His Former Self (1980)

– Por que estudar? Por que escrever? Por que fazer coisas que, normalmente, alguém não faria apenas para sobreviver? Por que inventar hábitos novos?

– Para ampliar o que se entende por vida.

– Por que devo aumentar o que entendo por vida?

– Aumentar o que se entende por vida não significa, aqui, entender mais sobre a vida; pois isso seria uma meta talvez pretensiosa demais para agora. Na verdade, a pergunta sobre o porquê deve-se aumentar o que se entende por vida só pode ser feita por uma pessoa que talvez não esteja realmente viva; pois se uma pessoa está viva, ela nunca perguntaria porque ela deve continuar viva, mas apenas continuaria fazer o que pode para que continue viva. Se estudar, escrever, pintar, dançar, fazer ovos poché ou o que quer que seja ajudam-na a se sentir assim, ela fará sem perguntar exatamente o porquê, por exemplo, como quando alguém vai ao bar ou vai torcer para seu time num jogos de futebol num domingo à tarde. A questão é que as relações de erotismo [1] que se têm com a vida, às vezes, parecem muito restritas a lugares como bares, estádios de futebol, shows de bandas famosas; elas podem estar em qualquer lugar — e podemos, por nossa vez, criar estas relações vivas, ou eróticas, também, em qualquer lugar: basta escolher um, talvez seja este o papel da mídia (escultura, gravura, desenho, escrita etc). Talvez um artista deva ser alguém que apenas entendeu que essa relação não vai se dar naturalmente, e por isto deve escolher um meio artificial — justamente para aproximá-lo daquilo que existe dentro dele, mas que ele não consegue atingir sozinho — sua própria vida. Talvez por isso Kerry James Marshall diga que ser um artista é como ter uma profissão qualquer — alguém que escolheu ser engenheiro ou cozinheiro também tem esta vida dentro de si, e também está distanciado dela — neste sentido, tentar aproximar-se dela através da arte ou de técnicas gastronômicas não difere em nada.

Kerry James Marshall

E quando James Marshall diz que artistas não são mágicos ou xamãs, profetas ou videntes, ele evidencia que a espiritualidade, como Res fala, se dá na carne: afinal, qual é o dispositivo que você usa para transportar seu corpo de um lugar comum — do lugar comum dele, que, na maioria das vezes, é apático e inconsciente de seu estado terminal e gélido? O que você faz com você quando está bravo ou frustrado? Que soluções você toma para sua depressão? Como você lida com a resistência do material que é você? Você quebra essa resistência ou se quebra perante ela? Você cria soluções, dado que elas não estão dadas para você, ou você apenas espera que isso passe — ao não quer dilacerar sua própria crisálida que te aprisiona? Se nos limitarmos a a acreditar que estar vivo se reduz a acordar, trabalhar, comer, dormir, reproduzir-nos e morrer, talvez a vida realmente não tenha muito valor e, consequentemente, nosso nome também não seja nada além de um nome. Se talvez enxergarmos que é preciso conquistar o que move tudo isso e, para isto, seja preciso um trabalho desgraçado e ao mesmo tempo abençoado — a ficção — porque é o único capaz de nos tirar da apatia em que estamos fundados — quem sabe aí um artista possa ser reconhecido como tal — e aí ele não se definirá mais como um artista — seu erotismo não estará mais limitado um objeto — e vai passar a estar em qualquer objeto em que ele toque — pois submetendo- se à sua vida e não sendo passivo — ele a criou — e ao mesmo tempo fê-la criar-se nele.

[1] Mas o que é erotismo? A aprovação de vida até na morte, ou seja, a vida levada a uma intensidade tal, sempre através do gasto inútil de energia, que não se distingue mais da morte.
Bataille, O Erotismo, Autêntica, pág. 16

 

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